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 ENTREVISTAMOS IGOR Z. CERQUEIRA – TALENTO DE BRASÍLIA


IgorZCerqueira

Certa vez, Caetano Veloso havia dito que o céu azul era o verdadeiro mar de Brasília, e, além das grandes bandas de rock da geração 80, parece que Brasília está aprofundando uma nova tradição, a geração de artistas do humor gráfico. Leia a seguir a entrevista do desenhista e estudante de cinema Igor Z.Cerqueira, conheça um pouco mais sobre esse artista que se relaciona constantemente com os quadrinhos, o cinema , a música e ainda arranja tempo para manter seu blog “Borra de Café”, onde publica as tiras de “Abelardo, o Abestado” e “camarada Raimundo”.

 1 – Igor, como iniciou sua relação/interesse com os quadrinhos e com o mundo da sétima arte?

Comecei a ler quadrinhos da mesma forma que, imagino eu, acontece com a maior parte das pessoas por aqui: com Turma da Mônica e Homem-Aranha. Tentar lembrar como exatamente peguei meu primeiro gibi é exigir um pouco demais da minha memória; mas o fato é que ler quadrinhos foi se tornando parte da minha rotina, mesmo. Quadrinhos são tão práticos – dá pra ler no carro, no ônibus, tomando café, na sala de espera do dentista, andando… Apesar de andar e ler ao mesmo tempo não ser lá uma prática muito inteligente. Além disso, perto da casa da minha vó tinha uma banca de revistas muito boa, então material para ler era o que não faltava.

Já com cinema, bem, uma das minhas memórias mais antigas é justamente de estar em uma sala de cinema, morrendo de medo de algum filme do Godzilla (só lembro da cara gigante dele gritando no escuro, com relêmpagos e tudo mais). Além disso, meu pai sempre gostou muito de filmes, então sempre tivemos um acervo bom em casa. Mas tenho que admitir que comecei a me interessar mesmo pelo negócio só depois de começar a estudar os filmes com mais atenção. Assistir Chinatown (de Roman Polanski, com roteiro de Robert Towne) também foi bem marcante.

2 – Muitos acreditam numa relação direta entre quadrinhos e cinema, não somente nos textos ou nas adaptações para a telona, mas também  na plasticidade. Qual a sua opinião a respeito?

É inegavel que os dois meios trocaram e continuam a trocar influências o tempo todo, já que os dois não só são meios muito visuais como também ambos tenderam a trabalhar principalmente com narrativas. Mas, pessoalmente, o que eu acho mais interessante nessas interações é justamente o quão diferentes eles são um do outro. A começar pelo simples fato de o cinema usar som e os quadrinhos não; mas também nos aspectos mais sutis, como as formas com que os dois trabalham o tempo ou a subjetividade dos personagens. Não quero ficar me alongando muito ou soar pedante, mas o fato é que existem diferenças estéticas muito, muito grandes entre quadrinhos e cinema; e eu acho estimulante ver as formas como, ainda assim, os dois interagem – testando os próprios limites como modo de expressão artística e, inevitavelmente, se enriquecendo com o processo.

 3 – Você também toca gaita, mas que papo esse de tocar o instrumento com um chapéu de coco na cabeça? Qual seu estilo musical?

Me apaixonei pelo Blues em particular à medida em que fui aprendendo a tocar gaita. Gente como Son House, Ray Charles, Joh Lee “Sonny Boy” Williamson e, mais recentemente, Susan Tedeschi e Carlos Del Junco (este que já estrapola o gênero um pouco, mas se declara um artista de Blues) mexe muito comigo. Não que eu não ouça outros estilos de música – muito pelo contrário, até – mas na hora de tocar a gaita é outra história. O Blues sempre acaba aparecendo uma hora ou outra.

Já quanto ao chapéu… Eu acho bonito. Gosto de chapéus-coco.

4 – Você realizou uma extensão de seus estudos de cinema no Canadá, qual a diferença de se estudar cinema fora do Brasil? Lá você conseguiu ter acesso ao quadrinho canadense (quais títulos)?

No curso de roteiro cinematográfico que eu fiz, lá na Vancouver Film School, achei particularmente interessante a forma como eles nos mantinham escrevendo simplesmente o tempo todo e quase sempre com prazos bem curtos. Tivemos aulas específicas sobre as técnicas, estruturas e mesmo especificidades de roteiro relativas aos diferentes gêneros (comédia, drama criminal, terror etc.); mas escrever, como qualquer outra forma de arte, não tem saída – aprende-se fazendo. Tem de escrever, mesmo que seja uma porcaria, porque só assim dá pra sentir na pele as dificuldades e buscar formas de lidar com elas. Parece meio besta eu ficar dizendo isto aqui, como se fosse um grande mistério que só eu sei, mas é que, até então, sempre tinha visto muita gente tratando a escrita como uma coisa meio sagrada (na falta de um termo melhor) ou intimista demais. Os professores não se sentiam livres para estabelecer prazos rígidos para entrega dos trabalhos nem os alunos para discutir os próprios trabalhos com outras pessoas. Lá na VFS, na minha opinião, os momentos em que os alunos e os instrutores se reuniam para discutir os trabalhos eram uma das melhores partes do curso inteiro.

De quadrinhos canadenses, o que mais me impressionou neste tempo foi um autor chamado Seth, em particular com o livro George Sprott (1894 – 1975). O cara não só consegue transitar muito bem entre humor e drama, mas também tem um domínio interessante do tempo dos quadrinhos. O ritmo das histórias é um pouquinho mais lento que o normal, mais contemplativo, mas sem ficar arrastado. Eu sou um cara meio devagar, então curto muito esse tipo de ritmo.

5 – Fazer cinema ou quadrinhos, o que você mais prefere?

Tenho de escolher um…? Os dois me trazem muita satisfação, mas são satisfações um tanto diferentes…

Tratando-se especificamente do fazer, nos quadrinhos, gosto muito do fato de que eles são relativamente fáceis de se produzir. Mesmo os filmes de baixo orçamento exigem muita grana, muita gente e um planejamento complicado pacas. Perto disso, publicar uma história em quadrinhos é até bem simples – você lida principalmente só com a parte criativa, que é tão gratificante. Além disso, eu acho tocante ver como “meros” desenhos, às vezes, têm a capacidade de ter personalidade; de parecerem vivos. É como se fosse possível viver uma vida inteira dentro daquele momento isolado que um desenho representa, mas sem ter a impressão de se estar estagnado; sem sentir tédio. É meio difícil de expressar, mas é uma sensação de que gosto muito.

Já no cinema, tenho gostado cada vez mais do trabalho colaborativo. Ver como as diferentes “partes” do processo – roteiro, direção, fotografia, som etc. – vão dialogando e interagindo para, no fim, criar algo que nenhuma das pessoas ali faria sozinha é muito, muito legal. O mesmo se dá, até certo nível, quando se colabora com um desenhista (o que eu também gosto de fazer); mas, no cinema, já que as equipes são bem maiores, a complexidade das interações aumenta muito. E ver as histórias criando vida ali, na sua frente, através de outras pessoas, é sempre um sentimento muito bacana.

6- Nas tirinhas de Abelardo, percebemos um traço e clima dos quadrinhos de humor de situação produzidos para a imprensa norte-americana no início do séc XX. Qual a principal influência para a criação desse personagem?

O Abelardo foi uma coisa bem espontânea, mesmo; não tive nenhum referencial específico na hora em que comecei a escrevê-lo. A princípio, eu tinha em mente os dois ou três traços principais da personalidade dele e idéias para algumas piadas; mas eu queria ver como o personagem poderia eventualmente ir se desenvolvendo sozinho.

Foi pouco depois eu comecei a conhecer mais a fundo o trabalho do George Herriman, aí virei fã incondicional dele. Não só do Krazy Kat, que é sua obra-prima, mas também de outras tiras como Stumble Inn, The family Upstairs ou mesmo Major Ozone’s Fesh Air Cruzade. Daí sim, comecei a tentar aprender o máximo possível com o cara, e, assim como muitas outras coisas, o Abelardo inevitavelmente se tornou parte deste estudo. E eu não poderia deixar de mencionar também o próprio Bill Watterson, cujo trabalho eu tanto admiro.

 7- Você pretende animar as histórias de seus personagens, já há projetos?

Não, ao menos por enquanto não tenho nenhum plano nesse sentido. Em geral, os personagens que eu escrevi em tiras até agora foram planejados para terem suas histórias contadas especificamente desta forma. A extrema proximidade que as tirinhas costumam ter com o cotidiano – que chega a ser muito maior, na minha opinião, que a que séries de TV ou novelas podem oferecer – são o que servem de estrutura para as histórias que estes personagens têm para contar. Eu até já tentei, por exemplo, planejar coisas diferentes com os detetives Klaus e Nicolaus; mas eles nunca funcionaram tão naturalmente quanto nas tiras.

Se um dia, porém, algum deles começar a me oferecer histórias para serem contadas de outra forma, provavelmente eu não teria problemas em experimentar.

 8 – Falando em projetos, quais na área de livros você pretende colocar no forno?

Tenho trabalhado em um roteiro em específico, para uma história mais longa, e gostaria muito de já começar a pôr o projeto em andamento no próximo semestre. Como ele ainda está em uma fase bem inicial, prefiro realmente não entrar em muitos detalhes; mas os primeiros tratamentos do roteiro já prometem bastante. Estou ansioso.

 9- Mande sua mensagem final aos seus amigos e admiradores.

Bem, eu sinceramente sou muito grato a qualquer um que leia o meu trabalho e fico lisongeado em saber que algumas pessoas chegam a gostar dele. Estou sempre fazendo o melhor que eu posso com esses trabalhos e espero que você, leitor ou leitora, também possa se beneficiar com ele de alguma forma.

igorTiras

igorTiras

 Conheça o trabalho de Cerqueira:

http://zeredocerqueira.blogspot.com/

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