(Entrevista exclusiva) MARCELO ALENCAR – EL COMANDANTE

Marcelo Alencar é presidente do 23° Troféu HQMix, integra o Conselho Consultivo do Museu de Artes Gráficas do Brasil (MAG), é jornalista e atua como editor de livros educativos na Fundação Padre Anchieta, a mantenedora da TV Cultura. Leia esta especial entrevista que o atual gestor do prêmio nos concedeu.
1 – Marcelo, para os amigos e seguidores do HQMix, quem é Marcelo Alencar?
Sou um caipira de Jacutinga, cidadezinha do sul de Minas Gerais, nascido em 1966. Morei em diversas cidades do interior paulista e me fixei na capital, onde me graduei em jornalismo, casei-me -- quase 18 anos atrás -– com a Cristiane, que é pedagoga e dona de escola, e tenho um filhão chamado Mateus -– que vai concluir o Ensino Médio no ano que vem. Já fui editor da revista Nova Escola e do programa Veja na Sala de Aula, ambos da Editora Abril, e também chefiei a reportagem do jornal Gazeta Esportiva. Nos longínquos anos 1980, atuei como cartunista no Jornal da Cidade de Jundiaí e lecionei Técnicas de Edição em Jornalismo Impresso -- ou algo assim -- nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM), onde me formei.
2 – Fale de sua relação com os quadrinhos. Desde a sua infância você já tinha a vontade de traduzir ou redigir para a nona arte?
Como boa parte dos garotos de classe média da minha geração, cresci cercado de gibis –- que coleciono até hoje. Por causa deles, aprendi a ler antes mesmo de chegar ao pré-primário.
Mas minha intenção inicial era ser desenhista. Treinei para isso (de forma autodidata) e, aos 16 anos, consegui meu primeiro emprego como cartunista. Desenhei charges, cartuns e caricaturas para várias publicações –- como o extinto Diário Popular, atual Diário de São Paulo. Também expus em salões de humor, como o de Piracicaba e o do Piauí. Infelizmente, acabei concluindo que nunca ganharia dinheiro atuando na área. Era um cartunista medíocre buscando espaço num mercado reduzido e cheio de gente talentosa.
Então, resolvi investir na carreira de jornalista. Frequentei o Curso Abril de Jornalismo e fui convidado a editar HQs para a editora durante o boom de gibis adultos ocorrido no fim da década de 1980. Fiquei quase 10 anos na função (editei Groo, Watchmen, The Spirit, Classics Illustrated, Aventura & Ficção, além de muitas graphic novels e minisséries premiadas). Também fiz crítica de quadrinhos para o Caderno 2 do Estadão por quase três anos. Desde o início dos anos 1990, traduzo quadrinhos Disney pra Abril em regime de freelancer. Entre outras coisas, verti pro português os 41 volumes de O Melhor da Disney – As Obras Completas de Carl Barks e escrevi as centenas de miniartigos que precedem as histórias reunidas nessa coleção.
Outra coisa de que me orgulho são as dezenas de oficinas de quadrinhos que organizei nos últimos 25 anos para entidades diversas: Prefeitura de Peruíbe, Fundação Cassiano Ricardo (de São José dos Campos), Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Universidade Metodista de São Bernardo do Campo, Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), Secretaria de Cultura do Estado etc.
3 – Quando iniciou seus trabalhos no HQMix? O que o levou para a presidência do 23° evento?
Colaboro com o HQMix, com maior ou menor participação, desde o primeiro ano de existência do prêmio. Aqui vale destacar que fui aluno do João Gualberto Costa –- um dos criadores do troféu -- num curso de HQs que ele ministrou (em parceria com o desenhista Líbero Malavoglia) em 1986, na Escola de Comunicações e Artes da USP. Desde então, engagei-me nas lutas da categoria. Naquele tempo, por exemplo, entrei para a Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas de São Paulo (AQC-SP), que brigava pela aprovação de uma lei federal que obrigaria os editores de quadrinhos a publicar um mínimo de 50% de material nacional.

Acho que fui chamado para presidir a comissão organizadora do HQ Mix por causa do meu amor pelos quadrinhos, porque tenho um currículo razoável e também porque me saí bem como mediador das entrevistas do programa Sábados da Memória das Artes Gráficas, uma iniciativa encampada pela Secretaria de Cultura do Estado que resgatou a trajetória de muitos artistas da área (em eventos semanais que tiveram lugar na Biblioteca de São Paulo entre 2010 e o início deste ano). Espero que essas conversas sejam, um dia, transcritas em forma de livros, pois extraí declarações relevantes/inéditas/emocionantes/inusitadas de nomes do quilate de Ziraldo, Angeli, Laerte, Luiz Gê, Lourenço Mutarelli, Renato Canini, Elifas Andreato, Guto Lacaz, Getulio Delphin, Paulo Caruso, Geandré, Loredano, Jô Oliveira etc.
4 – Desde que o prêmio foi criado, em 1988, qual a sua visão a respeito da evolução do Troféu?
O HQMix sempre foi um dos melhores termômetros do mercado brasileiro de quadrinhos. Ele reconhece o talento de autores iniciantes, reafirma a qualidade dos grandes mestres e, quando é o caso, retrata a escassez de boas obras em determinadas categorias.
Por seu caráter abrangente e democrático, firmou-se como o mais respeitado e influente prêmio do setor no país. E, com o crescimento do mercado, é natural que o troféu ganhe cada vez mais importância. E, convenhamos, aquelas estatuetas são muito lindas, não?
5 – Hoje, qual a presença que o prêmio tem para o mercado e artistas estrangeiros?
O mercado nacional reconhece amplamente o HQMix. Basta ver o nome do troféu estampado em capas de revistas e álbuns premiados. Todo editor adora expor as estatuetas em locais de grande visibilidade e cada autor inclui essas premiações no currículo.
Precisamos ganhar mais visibilidade internacional. Estamos trabalhando forte nesse sentido e devemos obter avanço significativo em breve. Mas, por enquanto, não posso adiantar nada sobre o assunto.
6- Na 23ª edição temos indicados de peso como Joe Sacco, Souza, Angeli, Kevin O'Neill, mas, entre tantos nomes fortes, qual você consideraria uma surpresa na lista de indicados?
Não vejo nenhum indicado como surpresa porque a própria indicação é sinal de que o artista mereceu estar na lista.
O que vem me surpreendendo de forma positiva, recentemente, é o grande número de novos talentos atuando na área.
7 – Considerando o nosso mercado interno, você acha que os artistas nacionais conseguem explorar pelo menos 50% de nossos pontos físicos e virtuais de revenda?
Qualquer resposta que eu dê nesse sentido será mera especulação. É preciso uma pesquisa séria para chegar a tal conclusão. Mas tenho notado uma crescente ocupação de espaços de comercialização –- na mesma medida que as bancas vêm perdendo importância para os nossos quadrinistas.
7 – O que pode ser feito para o quadrinho nacional (que é rico em talentos) alcançar melhores esferas de público e reconhecimento?
Já temos muitos autores maduros e editores sérios -– uma das condições básicas para concretizar essa abrangência e esse reconhecimento. Outros passos estão sendo dados para tal: a compra e a distribuição de quadrinhos pelo governo federal e a consequente diminuição do preconceito contra essa mídia por parte dos nossos educadores –- formadores de opinião que merecem nosso respeito --, por exemplo. Com isso, criamos leitores de quadrinhos. E estimulamos o surgimento de novos autores.
A internet também cumpre seu papel nesse cenário, pois democratiza as possibilidades de divulgação dos quadrinhos e de acesso do público a eles.
8 – Se um extraterrestre invadisse a Terra, qual história em quadrinhos você indicaria para ele ler?
Se houvesse uma invasão, o que implicaria uma agressão aos terráqueos, eu provavelmente apresentaria Flash Gordon, de Alex Raymond. Pra mostrar que a gente sabe lidar com ETs abusados. Porém, se o forasteiro viesse nos visitar de forma amigável, eu indicaria algum trabalho de Carl Barks, Will Eisner e/ou Robert Crumb. Esses caras são, no meu modesto entender, os melhores tradutores (em arte sequencial) da civilização humana.
9 – Hoje, na TV Cultura, quais são os seus projetos atuais e futuros?
Meu trabalho na Fundação Padre Anchieta, hoje, não tem relação direta com quadrinhos. Eu edito livros sob demanda para diversos órgãos estatais. O conteúdo dessas publicações é, quase sempre, direcionado à qualificação de trabalhadores que estão fora do mercado ou querem ingressar nele pela primeira vez. Mas a gente que ama gibi sempre dá um jeitinho de inserir essa linguagem em nosso cotidiano, concorda? Acabo de editar uma série de cartilhas do Banco do Povo Paulista, para pequenos empreendedores, em que incluí pequenas HQs -– roteirizadas pelo Julio de Andrade Filho, ex-diretor da redação Disney, na Abril, e desenhada pelo estúdio Pingados (formado pelos incríveis Beto Ueki, Gil Tokio e Leandro Robles).
Tenho planos de editar quadrinhos por aqui, sim. Mas ainda não há nada de concreto que eu possa anunciar.
9 – Convide os seus fãs, fale de seus projetos e deixe sua mensagem final.
Quero convocar todos os fãs de quadrinhos para lotar o teatro do SESC Pompeia, em São Paulo, na noite de 16 de setembro, para assistir ao vivo à cerimônia de entrega do 23º HQMix. Além de se divertir com os shows, vocês terão a oportunidade de encontrar seus ídolos e, de quebra, ganhar um presente surpresa que estamos preparando para a ocasião.
Para quem ainda não sabe, o troféu deste ano homenageia o saudoso Glauco Villas-Boas, que nos deixou de forma dramática em 2010. A estatueta traz a figura do inesquecível Geraldão.
Obrigado.
Para maiores informações sobre o HQMix, acesse:
ENTREVISTANDO "JAL" – O CRIADOR DO TROFÉU HQMIX
- ENTREVISTA - CACO GALHARDO – O NOME DELE É GALHARDO.
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- ENTREVISTA - LORDE LOBO E SEU ANTI-HERÓI PENITENTE.
- BATE-PAPO - GENÉTICA E DNA EM QUADRINHOS
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